Clarice e o cavalo preto

“Existe um ser que mora dentro de mim como se fosse casa dele, e é.
Trata-se de um cavalo preto e lustroso que apesar de inteiramente selvagem
– pois nunca morou em ninguém nem jamais lhe puseram rédeas nem sela –
apesar de inteiramente selvagem

tem por isso mesmo uma doçura primeira de quem não tem medo:
come às vezes na minha mão.
Seu focinho é úmido e fresco.
Eu beijo o seu focinho.
Quando eu morrer, o cavalo preto ficará sem casa e vai sofrer muito.
A menos que ele escolha outra casa e que esta outra casa não tenha medo daquilo que é ao mesmo tempo selvagem e suave.
Aviso que ele não tem nome:
basta chamá-lo e se acerta com seu nome.
Ou não se acerta, mas, uma vez chamado com doçura e autoridade, ele vai.
Se ele fareja e sente que um corpo-casa é livre, ele trota sem ruídos e vai.
Aviso também que não se deve temer o seu relinchar:
a gente se engana e pensa que é a gente mesma que está relinchando de prazer ou de cólera, a gente se assusta com o excesso de doçura do que é isto pela primeira vez”.

Clarice Lispector In Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres


Já mil livros.
Hoje, leio, releio, abro no meio o mesmo livro mil vezes.
Uma Aprendizagem… , leio há uns 20 anos e toda vez é diferente: o livro e eu somos.
Caleidoscópico como a vida!
Como a vida!
Há se eu entendesse tudo o que já passou pelas minhas pupilas…

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